Cirurgia é a segunda grande área do Revalida INEP, respondendo por aproximadamente 15-20% das questões da prova teórica. Diferentemente do que muitos candidatos temem, o Revalida não exige conhecimento de técnica operatória — o foco é no diagnóstico, na indicação cirúrgica e na conduta inicial. Ou seja: o que se espera de um clínico geral competente diante de uma emergência cirúrgica.
1. O Peso da Cirurgia na Prova
Na prova teórica de 100 questões, Cirurgia geralmente contribui com 15 a 20 questões. A distribuição interna segue um padrão:
| Subtema | Questões (aprox.) | Peso dentro de Cirurgia |
|---|---|---|
| Trauma / ATLS | 4-6 | ~30% |
| Abdome agudo / Urgências | 4-5 | ~25% |
| Hérnias | 2-3 | ~15% |
| Ortopedia | 2-3 | ~15% |
| Urologia | 1-2 | ~10% |
| Outros (vascular, cabeça/pescoço) | 1 | ~5% |
Trauma + Abdome agudo representam mais da metade das questões de Cirurgia. Se você dominar apenas esses dois subtemas, já consegue acertar 55% das questões cirúrgicas — o suficiente para não perder pontos nessa área.
2. Tabela de Temas por Frequência
Análise das últimas 5 edições do Revalida (2023.1 a 2025.1):
| Posição | Tema | Aparições (5 provas) | Frequência |
|---|---|---|---|
| 1 | Apendicite aguda | 5/5 | 100% |
| 2 | Trauma (ABCDE / ATLS) | 5/5 | 100% |
| 3 | Colecistite / Colelitíase | 4/5 | 80% |
| 4 | Obstrução intestinal | 4/5 | 80% |
| 5 | Hérnias inguinais | 4/5 | 80% |
| 6 | Pancreatite aguda | 3/5 | 60% |
| 7 | Fraturas (fêmur, rádio, colles) | 3/5 | 60% |
| 8 | Trauma cranioencefálico (TCE) | 3/5 | 60% |
| 9 | Pneumotórax / Hemotórax | 2/5 | 40% |
| 10 | Retenção urinária aguda | 2/5 | 40% |
| 11 | Doença diverticular | 2/5 | 40% |
| 12 | Trauma abdominal (contuso/penetrante) | 2/5 | 40% |
3. Cirurgia do Trauma (ATLS)
Trauma é o tema cirúrgico mais cobrado no Revalida. O INEP segue estritamente o protocolo ATLS (Advanced Trauma Life Support) do Colégio Americano de Cirurgiões.
3.1. ABCDE do Trauma
A sequência de atendimento ao politraumatizado é a base de tudo:
- A — Airway (Via Aérea) com proteção cervical: Garantir perviedade da via aérea. Colar cervical. Se necessário: chin lift, jaw thrust, IOT ou cricotireoidostomia
- B — Breathing (Ventilação): Avaliar expansibilidade, ausculta, percussão. Tratar: pneumotórax hipertensivo (punção de alívio + drenagem), hemotórax maciço (drenagem + cirurgia se >1.500ml ou >200ml/h), pneumotórax aberto (curativo de 3 pontas + drenagem)
- C — Circulation (Circulação): Controle de hemorragia. Dois acessos venosos calibrosos. Ringer Lactato 1-2 litros aquecido. Classificação do choque hemorrágico (Classes I a IV)
- D — Disability (Avaliação neurológica): Glasgow, pupilas, lateralidade. Glasgow ≤8 = IOT
- E — Exposure (Exposição): Despir completamente + prevenção de hipotermia
O Revalida adora questões onde o candidato precisa identificar qual letra do ABCDE está comprometida. Exemplo clássico: paciente politraumatizado, taquipneico, com desvio de traqueia e timpanismo à percussão → o problema é no B (pneumotórax hipertensivo). A conduta imediata é punção de alívio no 2º espaço intercostal, linha hemiclavicular — antes de qualquer exame de imagem.
3.2. FAST (Focused Assessment with Sonography for Trauma)
- O que é: Ultrassom à beira do leito para detectar líquido livre (sangue) no abdome e pericárdio
- 4 janelas: Hepatorrenal (Morrison), Esplenorrenal, Suprapúbica, Subxifoidea
- FAST positivo + instabilidade hemodinâmica = laparotomia exploradora
- FAST negativo + estável = TC de abdome com contraste para avaliação complementar
3.3. Indicações de Cirurgia no Trauma Abdominal
- Instabilidade hemodinâmica com FAST positivo
- Ferimento por arma de fogo com penetração peritoneal
- Evisceração
- Sinais de peritonite
- Pneumoperitônio na radiografia
4. Urgências Abdominais
4.1. Apendicite Aguda
Tema mais cobrado em Cirurgia (100% de frequência):
- Quadro clássico: Dor periumbilical → migração para FID. Anorexia, náuseas, febre baixa
- Sinais semiológicos: McBurney (ponto doloroso), Blumberg (descompressão dolorosa), Rovsing (dor em FID ao palpar FIE), Psoas, Obturador
- Diagnóstico: Clínico (Escore de Alvarado ≥7 = alta probabilidade). TC abdome em casos duvidosos
- Tratamento: Apendicectomia (laparoscópica preferencial). ATB profilático perioperatório
- Complicações: Perfuração → abscesso periapendicular ou peritonite difusa
4.2. Colecistite Aguda
- Quadro: Dor em HCD (sinal de Murphy positivo), febre, leucocitose
- Critérios de Tokyo: Sinais de inflamação + achados locais + achados laboratoriais
- Diagnóstico: USG de abdome (cálculo + espessamento da parede vesicular + Murphy sonográfico)
- Tratamento: Colecistectomia videolaparoscópica precoce (idealmente nas primeiras 72h) + ATB
4.3. Obstrução Intestinal
- Causas mais comuns: Bridas/aderências (70%), hérnias encarceradas, neoplasias
- Quadro: Dor abdominal em cólica, distensão, vômitos, parada de eliminação de flatus e fezes
- Radiografia: Níveis hidroaéreos, distensão de alças (delgado: pregas circulares; cólon: haustrações)
- Tratamento conservador: SNG + hidratação IV (obstrução parcial por brida)
- Tratamento cirúrgico: Sinais de estrangulamento (febre, taquicardia, leucocitose, dor contínua), hérnia encarcerada, obstrução completa refratária
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Resolver Questões de Cirurgia5. Hérnias da Parede Abdominal
Hérnias são tema recorrente (80% de frequência), com foco em hérnias inguinais:
Classificação de Nyhus:
- Tipo I: Hérnia inguinal indireta com anel interno normal
- Tipo II: Hérnia inguinal indireta com anel interno dilatado, parede posterior íntegra
- Tipo III: Defeito na parede posterior (IIIA = direta, IIIB = indireta com destruição da parede, IIIC = femoral)
- Tipo IV: Recidivada
Conduta:
- Hérnia redutível: Cirurgia eletiva (hernioplastia com tela — Lichtenstein)
- Hérnia encarcerada: Tentativa de redução manual → se falhar, cirurgia de urgência
- Hérnia estrangulada: Cirurgia de emergência (risco de necrose intestinal)
Hérnia encarcerada = conteúdo irredutível mas viável. Hérnia estrangulada = comprometimento vascular do conteúdo (isquemia/necrose). Sinais de estrangulamento: dor intensa, toxemia, sinais de irritação peritoneal. Essa diferenciação é cobrada com frequência.
6. Pancreatite Aguda
- Etiologia: Biliar (40-70%) e alcoólica (25-35%) são responsáveis pela maioria dos casos
- Diagnóstico: 2 de 3 critérios: dor epigástrica em faixa com irradiação para dorso + lipase/amilase >3x o limite superior + achados de imagem (TC/USG)
- Classificação de gravidade:
- Ranson ≥3: Pancreatite grave
- APACHE II ≥8: Pancreatite grave
- PCR >150: Indica necrose
- Tratamento: Hidratação agressiva (Ringer Lactato 250-500 ml/h nas primeiras 24h) + analgesia + dieta zero → progressão precoce
- Indicação cirúrgica: Necrose infectada (punção guiada por TC → cultura positiva) → necrosectomia (preferencialmente tardia, >4 semanas)
- Pancreatite biliar: Colecistectomia na mesma internação (se leve) ou após recuperação (se grave)
7. Ortopedia Básica
O Revalida cobra ortopedia no nível de um clínico geral — diagnóstico e conduta inicial, não técnica cirúrgica:
Fraturas mais cobradas:
| Fratura | Mecanismo | Conduta Inicial |
|---|---|---|
| Fratura de fêmur proximal | Queda em idosos | Imobilização + cirurgia (artroplastia ou osteossíntese) |
| Fratura de Colles | Queda sobre mão estendida | Redução + imobilização gessada |
| Fratura supracondiliana do úmero | Queda em criança | Avaliar pulso radial (risco de lesão de artéria braquial) |
| Fratura de tornozelo | Entorse com inversão/eversão | Classificação de Weber → imobilização ou cirurgia |
| Fratura exposta | Trauma de alta energia | ATB + lavagem + desbridamento + fixação. Classificação de Gustilo-Anderson |
Síndrome compartimental:
Complicação temida de fraturas, especialmente de tíbia e antebraço:
- Clínica: Dor desproporcional, dor à extensão passiva dos dedos, parestesia, tensão do compartimento
- Diagnóstico: Clínico (pressão compartimental >30 mmHg confirma)
- Tratamento: Fasciotomia de urgência — não espere exames de imagem
8. Urologia
Temas urológicos cobrados com frequência:
8.1. Retenção Urinária Aguda
- Causa mais comum: Hiperplasia prostática benigna (HPB) em homens idosos
- Quadro: Incapacidade de urinar, dor suprapúbica, globo vesical palpável
- Conduta imediata: Cateterismo vesical de alívio. Se falhar: cistostomia suprapúbica
- Investigação: PSA, USG de vias urinárias, avaliação urológica
8.2. Cólica Nefrética
- Quadro: Dor lombar unilateral intensa, tipo cólica, irradiação para região inguinal, hematúria
- Diagnóstico: TC sem contraste (padrão-ouro) ou USG (identifica hidronefrose)
- Tratamento conservador: AINEs (cetorolaco) + hidratação + Tamsulosina (para cálculos 5-10mm)
- Indicação cirúrgica/intervenção: Cálculo >10mm, infecção associada (pionefroise), rim único obstruído, dor refratária
9. Correlação com OSCE
Estações cirúrgicas no OSCE são frequentes e incluem:
- Atendimento ao politraumatizado: Demonstrar o ABCDE sequencialmente (estação mais comum)
- Sutura: Técnica de sutura simples em modelo/manequim. Avaliação: lavagem, anestesia local, técnica asséptica, escolha do fio
- Avaliação de abdome agudo: Anamnese + exame físico dirigido + hipótese diagnóstica + conduta
- Avaliação de hérnia inguinal: Exame físico (manobra de Valsalva, diferenciação direta/indireta)
- Imobilização: Técnica de tala gessada para fratura de punho
- Drenagem torácica: Indicação e técnica (no manequim) para pneumotórax/hemotórax
Nas estações de trauma, a banca avalia se você segue a sequência ABCDE rigorosamente. Não pule etapas, mesmo que o problema pareça óbvio. Se o paciente tem pneumotórax hipertensivo (B), você ainda precisa avaliar A primeiro. A sequência é o que a banca quer ver.
10. Como Estudar: Foco em Conduta
O erro mais comum dos candidatos na área de Cirurgia é estudar técnica operatória. O Revalida não cobra técnica cirúrgica. O que a banca quer saber:
- Quando operar: Indicações cirúrgicas precisas (ex: quando um abdome agudo é cirúrgico vs clínico)
- Quando NÃO operar: Tratamento conservador e seus critérios (ex: obstrução por brida sem sinais de estrangulamento)
- Conduta inicial: O que fazer nas primeiras horas (hidratação, ATB, analgesia, exames)
- Diagnóstico: Qual exame pedir e como interpretar (USG, TC, radiografia)
- Complicações: Reconhecer complicações pós-operatórias (deiscência, infecção de sítio, fístula)
Pense como um clínico geral competente que trabalha em uma UPA ou pronto-socorro: você precisa saber diagnosticar, estabilizar e decidir se o paciente precisa ou não de cirurgia. Você NÃO precisa saber fazer a cirurgia.
11. Estratégia e Material
Livros recomendados:
- Sabiston — Tratado de Cirurgia: Referência completa, use como consulta para temas específicos
- Manual do ATLS (10ª edição): Indispensável para trauma. Leia os primeiros 5 capítulos com atenção
- Schwartz — Princípios de Cirurgia: Alternativa ao Sabiston, com abordagem mais prática
- Clínica Cirúrgica (USP): Livro brasileiro com foco em condutas práticas
Cronograma sugerido (8 semanas):
| Semanas | Tema | Foco |
|---|---|---|
| 1-2 | Trauma / ATLS | ABCDE, FAST, indicações cirúrgicas, choque |
| 3-4 | Abdome agudo | Apendicite, colecistite, obstrução, diverticulite |
| 5 | Hérnias + Pancreatite | Classificação, conduta, complicações |
| 6 | Ortopedia + Urologia | Fraturas comuns, retenção urinária, litíase |
| 7-8 | Questões + Revisão | Resolver todas as questões de cirurgia do INEP |
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